As Entrevistas

 

 

 Gradualmente minha realidade passou a ser invadida por essa percepção constante das trevas em todas as coisas e relações. Tudo parecia morto, falso, doente, artificial. Nada valia a pena e eu via a morte estendendo suas mãos ossudas sobre tudo e sobre todos. Nos meses que se seguiriam minha saúde iria pagar o preço dessa pressão constante: muitas vezes enquanto datilografava durante o dia tinha que parar para vomitar, nauseado. No final do processo apresentava uma úlcera do duodeno e não era incomum para mim vomitar sangue. Apenas depois que emergi de volta dessa jornada pude curar em definitivo essa sequela física.

  A cada vez eu não sabia qual ambiente ou paisagem iria encontrar e, além dessa inquietude, havia o fato de que as entidades sempre misturavam verdades com mentiras, de modo que é preciso considerar suas declarações sempre sob esse prisma de absoluta desconfiança e completo ceticismo. Elas têm acesso a qualquer informação que quiserem e as usam para mesclar com as falsidades necessárias para enganar o interlocutor, o que torna o diálogo bastante difícil. Essa observação é essencial para enfatizar que algumas verdades não convalidam inúmeras mentiras e que as opiniões, a filosofia e a psicologia desses seres nada ou muito pouco tem a ver comigo.

  Isto posto, também importa referir que não saberia precisar o número de vezes que encontrei cada entidade e que o conteúdo dos encontros sobrepassa amplamente o que estou prestes a relatar. As entrevistas estão na ordem que foram acontecendo. Alguns demônios encontrei mais vezes, outros bem menos, conforme o tempo que levava para esgotar o conteúdo e explorar o seu mundo. Cada entidade tem uma zona, uma região ou dimensão que lhe é própria e onde habitam os seus acólitos, súditos, vítimas e seguidores. Estas são as suas histórias.

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