Leviathan

 

 

Aqui percebi que estava sofrendo mais uma vez o efeito de um poder equivalente ao dos primeiros demônios que encontrei, que podiam distorcer o tempo e me fazer sentir que passei um século emparedado, ou que vaguei durante anos quando, no mundo físico, isso ocorria em períodos de três horas e ao longo de muitos dias. Assim como apenas os mais poderosos podem assumir a forma humana, também a eles é restrito o poder de alterar a percepção do tempo e criar experiências que parecem intermináveis: isso é o que eu estava enfrentando novamente.

Enquanto descia na escuridão líquida capturado como um peixe em um arpão, fui aos poucos percebendo movimentos rápidos no escuro, serpentinos, ávidos, me acompanhando na descida. Mais ao fundo começaram a surgir criaturas estranhas como monstros marinhos ou seres abissais, com bocas enormes e compridos tentáculos luminescentes. Olhando para baixo notei que havia o brilho de um fogo igual ao de um vulcão submarino, fervendo o líquido em grandes colunas de bolhas e fazendo revolutear as criaturas serpentinas e disformes que me aguardavam, pois era diretamente para lá que eu estava sendo arrastado de modo inexorável.

Em um instinto básico que eu sabia ser inútil, mas que me dava uma impressão de segurança, cruzei os braços diante do rosto no momento do impacto, que não houve. Atravessando a boca de fogo sem nenhuma resistência, abri os olhos apenas para ver que tinha atravessado o telhado de um alto galpão industrial e que caía direto contra o piso de pedra vinte metros abaixo. O impacto foi mais parecido com um impacto real do que eu tinha imaginado e muito mais concreto do que eu gostaria: caí de frente, ao comprido e uma dor espantosa me atingiu como um caminhão. No mundo material estaria morto mas naquele orbe apenas desejei que estivesse, paralisado de dor, tonto.

Anos de violência e de ferimentos, no entanto, ensinam a lutar com dor, a transformá-la em raiva como um combustível da guerra e assim levantei, ainda fraco, para examinar ao meu redor o mais rápido possível. Essa tarefa de reconhecimento corre o risco de ser simples, mas o que vi foi desconcertante. Eu estava em um enorme prédio antigo de feitio industrial, sem nada dentro, apenas um prédio enorme e oco, com uma arquitetura que me pareceu notoriamente vitoriana. Algumas poucas lâmpadas esparsas lançavam uma luz amarelada e mortiça que só servia para tornar as sombras mais compridas. Pelas grandes e sujas janelas filtrava-se uma vaga luminosidade esverdeada, opalescente. A não ser pelo som de alguns pingos esparsos o silêncio era total, absoluto, submarino.

Eu tinha caído em uma das pontas do galpão e atrás de mim havia apenas uma cadeira e uma mesa debaixo de uma lâmpada pendurada e oscilante, como em um interrogatório e essa visão não foi nada animadora. Eu estava cansado de tantas provocações, ironias e ameaças e não estava com ânimo para conversar longamente, muito menos ser interrogado. “Não reconheço autoridade aqui sobre mim”, pensei, “não tenho por que responder a nada.”

Decidido a investigar as paredes e os limites dessa construção comecei a andar e imediatamente a parede para a qual me dirigia afastou-se de mim na mesma medida. Mudando de direção, comecei a andar e a outra parede afastou-se também em igual medida. Por mais que eu andasse nunca teria como alcançar os limites do prédio. Era evidente que algo ou alguém me queria naquele cenário lúgubre por alguma razão que eu em breve descobriria e portanto voltei para a cadeira, afastei-a para que não ficasse exatamente embaixo da lâmpada como estava e sentei-me ao contrário, espiando para todos os lados, inquieto.

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